30 de mai. de 2009

Um artigo - O Principe e Utopia

Artigo realizado para a disciplina de História da Filosofia Moderna I. O DISCURSO POLÍTICO

A palavra discurso não existe por si só. Ela só existirá com a condição de que alguém a fale ou escreva e conseguintemente essa mensagem seja transmita para outro, assim como é preciso que os dois estejam propensos a falar/entender a mesma linguagem, talvez por isso, o discurso é conceituado como “uma exposição que ultrapassa o plano puramente gramatical, lingüístico e cultural” (BRANDÃO, 1998, p.78), ou seja, o discurso é uma exposição que compreenderá formas específicas de ação e expressão e só poderá ser entendida posteriormente quando for contextualizado, isto porque, do próprio ponto de vista discursivo todo discurso só tem significado autêntico no contexto em que é produzido. Assim, um mesmo discurso, observado em momentos diferentes, pode corresponder a interpretações desiguais.
Existem diversos tipos de discursos, mas todos possuem o mesmo propósito: atuar ou agir sobre o outro através da linguagem oral ou escrita. E mesmo que este se mostre como um divulgador de idéias, uma de suas principais ferramentas será “o princípio do dialogismo”, em que o autor dialoga com o leitor e com outros discursos, criando um efeito chamado “rede interdiscursivo”, instituindo uma relação de aliança ou de oposição com os outros textos. Um campo farto para observamos essa rede de interdiscursividade são os discursos políticos.
Como os outros discursos, o objetivo do discurso político também tem uma intenção de ser e conseguintemente de se fazer entender, portanto, ele não se esquematiza para fracassar, mas ser avaliado positivo ou contrariamente. Porém, este possuirá características próprias, como; ser um texto altamente argumentativo e fortemente persuasivo, assim como alicerçado por pontos de vista de um emissor disposto a nos mostrar uma verdade (ou o que lhe parece ser verdade) que ajudará a resolver problemas no âmbito socioeconômico de uma sociedade.
Motivados por essas conceituações sobre discurso e interdiscursividade, tentaremos realizar um breve estudo comparativo das obras O Príncipe, de Nicolau Maquiavel e Utopia de Thomas More, como núcleos de dois discursos políticos que posteriormente se tornaram mais amplos e paradoxais.

REALISMO X IDEALISMO

O florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527) nasceu no ápice de uma próspera Itália renascentista, mas que politicamente era fraca no seu fazer militar. Ainda jovem (29 anos) conseguiu um alto cargo na administração civil (seguindo os passos do pai, que fora advogado) e ao longo de quase quinze anos participou de diversas missões diplomáticas, viajando por países como Alemanha e França, tendo a oportunidade de apreciar as diferentes formas de governos desempenhados nesses lugares. Em 1512 perde o cargo quando os Médici retomam o poder de Florença e no mesmo ano é preso e torturado sob a suspeita de colaborar contra a Família Real. Liberto, isola-se em San Casciano, próximo a Florença, onde escreverá vários livros, entre eles; O Príncipe, sua obra-prima. A intenção do autor era presentear o Papa Leão X (o também florentino Guilherme de Médici) com a obra, já que esta fora escrita com o desejo de Maquiavel retornar à vida pública, como não foi possível, a obra foi dedicada a Lourenço de Médici.
O Príncipe é um livro que possui 26 capítulos e chamou-se inicialmente De Principatíbus (“sobre os principados”), mas teve seu título alterado logo na sua primeira edição. Durante mais de três séculos seu autor foi impiedosamente criticado por oferecer subsídios teóricos para que o governante defendesse seu posto a qualquer custo, porém, sob a obra criou-se um marco que dividiria a história das teorias políticas e que só no final do século 19 começaria a ser analisada discursivamente de outra forma. Hoje, conclui-se que, a grande crítica que se criou em relação à obra foi a de que Maquiavel não se mostrava um idealista e sim, realista no que se refere às condutas políticas, por isso as sentenças negativas.
O inglês Thomas More (1478-1535) ou Morus (já que seu sobrenome foi alatinado) também teve a figura paterna envolto com os códigos civis (seu pai fora um dos juízes do banco dos reis ingleses do século XV) e começou a se interar do mundo político aos 19 anos quando, ao término de seus estudos em Oxford, conheceu o humanista holandês Erasmo de Rotterdam, iniciando um curso de três anos sobre Legislação, ao mesmo tempo em que se preparava para exercer a advocacia. Posteriormente More seria membro do Conselho Privado no reinado Henrique VII e após a queda do cardeal Wolsey, nomeado Grande Chanceler.
Utopia, sua obra mais conhecida, foi editada em Basiléia (Suíça) por Erasmo, com quem More se correspondia frequentemente e confessava suas aversões diante “os negócios dos principados”1 e fora escrita como uma sátira na qual, através de um extenso diálogo, critica a todas as instituições da época, edificando uma sociedade imaginária em que não há propriedades privadas, injustiças contra o povo e normas bélicas, portanto, todas as misérias de um feudalismo em decadência que ainda regia a sua época.
Ao criar uma ilha que também se chamava Utopia2 habitada por utopianos (que constroem uma sociedade comunitária e é descoberta por um navegador errante), More não só cria um novo gênero literário (com muita imaginação, ironia e questionamentos), mas também aproveita para arquitetar uma forte análise à sociedade em que vivia. Ao contrário da obra de Maquiavel, Utopia recebeu e recebe críticas árduas sobre as suas pretensas propostas, só que desta vez, por ser em demasia, idealista.
O realismo de Maquiavel e o idealismo de Thomas Morus se fizeram através de discurso políticos sobre atos administrativos que eram necessários serem discutidos ou reformulados. O primeiro por apresentar um princípio político centrado na experiência e na prática, isto é, uma visão realista de como o governante pode e deve de fato, administrar o seu estado. No campo oposto, Morus designa um termo que por si só tornou-se sinônimo de idealização, hipótese ou imaginação, para propor uma sociedade mais perfeita, mas que em sua obra não surge como um amontoado de devaneios governamentais, recaindo uma crítica, sim, a própria sociedade dita real, quando o autor sentencia: “[...] no caso do ser humano, a razão é a vaidade, a idéia de que se é melhor do que os outros quando se pode ostentar grandes propriedades e todo o tipo de luxo supérfluo. Esse tipo de coisa, porém, não acontece em Utopia”. (MORUS, 1993, p. 82). Temos em Utopia um discurso que hoje chamamos de “metateórico”, ou seja, que se utiliza da literatura, mas que almeja a filosofia. Por isso, as imagens e os diálogos contidos na obra são sagazmente provocativos e o que aparentemente constitui-se uma conversa é uma artificiosa tática de envolver o leitor na sua representação de “república idealizada”.

CISÕES E ENLACES ENTRE POLÍTICA E ÉTICA

Para Maquiavel a política não pode ser dissociada do real, isto é, da história, pois é ela quem confirma eventualmente o desdobrar das próprias ações políticas, e conseguentemente; “[...] os homens prudente escolherão sempre o caminho trilhado pelos grandes vultos, selecionando os mais destacados, de modo que, mesmo sem atingir sua grandeza, se beneficiem de qualquer modo com alguns dos seus reflexos [...]” (MAQUIAVEL, 2004, p. 23).
Ao afirmar que não podendo separar a história do homem (já que a ação política é também histórica por amparar-se nesse passado que estabelece seu ponto de partida) considera o autor que esse indivíduo será sempre o mesmo porque a própria história se repete em suas linhas gerais. Essa atenção para os erros e acertos cometidos pelos povos mais antigos pode ajudar a modificar a história dos governos mais modernos, sendo algo relativamente fácil, principalmente para aqueles que estudam com profundidade os acontecimentos que antecederam os governos atuais. Nele caso, abstraindo como remédio as situações semelhantes, o governante, segundo o discurso maquiaveliano, terá também que possuir algo que se designará virtú, para que o governante se mantenha no poder.
Quando se fala em virtú segundo Maquiavel, estamos discorrendo sobre uma ação que sempre deve corresponder as necessidades governamentais, por isso, ela pode ser um atributo moral (agregando-se mais ao termo “virtude”, usado ultimamente), mas também o seu contrário, mesmo por que, estamos falando de decisões administrativas, que levam em conta várias esferas do espaço público, assim; [...] o príncipe que deseja manter-se, aprenda a agir sem bondade, faculdade que usará ou não, em cada caso, conforme seja necessário” (MAQUIAVEL, 2004, p. 93). O governante dotado de virtú será aquele que saberá se servir de todas as qualidades do irrevogável jogo político, por conseguinte, terá maior virtú aquele governante que souber se desvencilhar das qualidades oferecidas ao homem comum.
Não obstante, o príncipe deve fazer-se temer de modo que, mesmo que não ganhe o amor dos súditos, pelo menos evite seu ódio. O temor e a ausência de ódio podem coexistir – isto é conseguido por aquele que se abstrair de atentar contra o patrimônio dos súditos e cidadãos, que haja uma justificativa e uma razão manifesta [...] Por outro lado, sempre há um pretexto para tomar os bens alheios, e quem começa a viver da rapina encontrará sempre algum motivo para tomar o que não é seu [...] (MAQUIAVEL, 2004, p. 80-81)

A observação a um eventual erro (o de apropriar-se de patrimônios sem uma devida justificativa) possui o claro intento de reposicionar o governante na sua condição de também membro dessa sociedade, tendo este também que contar com a estima do seu povo, algo que pode ser alcançado se este oferecer um discurso solidário.
Já em Utopia não teremos um, mas três discursos; o de Thomas More que, através das indagações apresenta voluntária ou involuntariamente a realidade social da Europa do século XVI, portanto, do início da Idade Moderna; do português Rafael Hitlodeu, que após desligar-se da esquadra de Américo Vespúcio, encontra a Ilha de Utopia e sua admirável conduta política; e o de Pedro Giles que será não só a figura intercessora entre o primeiro e o segundo, mas aquele que vestirá o capuz de cidadão virtuoso, de rara sabedoria, leal e dedicado, portanto, o homem disposto a não ridicularizar a política utopiana, mesmo que inicialmente questione a veracidade dos acontecimentos descritos pelo estrangeiro, principalmente quando aquele pergunta por que este não buscou um principado depois de perder-se, já que, qualquer um não negaria serviços a um homem de tantas culturas e lugares, quando este retruca;

[...] A maioria dos príncipes preocupam-se apenas com a guerra ou a arte da cavalaria. [...] As artes da paz são desprezadas; esforçam-se com mais aplicações em empregar todos os meios, bons ou maus, para aumentar os seus domínios, que em governar com justiça e paz os que já possuem. (MORE, 2002, p.25)

Hirlodeu apresentar um governo que oferece aos seus cidadãos a possibilidade de uma vida virtuosa, bem distante das virtudes oferecidas aos povos medievais e renascentistas, que apenas disfarçavam os interesses de um grupo dominante e que confundiam virtudes com disciplina e renúncias.
Os Utopianos definem assim a virtude: “Viver conforme a natureza, e para isso Deus nos destinou”. O homem que segue o curso da natureza é aquele que se orienta pela razão nos seus apetites e desprezos. [...] A natureza leva todos os homes ajudarem-se mutuamente para viverem felizes (e não procede assim sem boa causa, pois ninguém está tão acima da condição humana que a natureza se ocupe exclusivamente dele, quando, pelo contrário, favorece todos os que possuem a mesma forma e espécie [..]. (MORE, 2002, p.76-77)
Essa virtude de “viver conforme a natureza”, não está ligada apenas ao ofício dos seus membros em plantarem e colherem o seu próprio sustento, tecerem suas vestimentas e admirarem o pôr-do-sol, mas principalmente às ações intimamente ligadas aos prazeres físicos e espirituais, relacionando o prazer com a natureza e a própria racionalidade, pois [...] não só os sentidos, como também a razão, cobiçam tudo o que é naturalmente agradável e que possa ser conseguido sem injustiça ou erro, sem impedir um prazer maior ou que não acarrete consigo esforço doloroso. (MORE, 2002, p.77).
Essa análise de que todas as nossas ações e consequentemente todas as nossas virtudes devem se aliar aos prazeres da vida nos leva a um “princípio de ação moralmente pura”, que, a priori, não é um principio de ação no mundo (isto é, do público para o privado), mas um principio no qual as ações podem ser julgadas ou refletidas pelo próprio indivíduo, mesmo que posteriormente tenha uma observação exterior.

[...] A moral pura é fundada no discurso razoável do indivíduo que quer ser coerente, portanto, que não quer ser indivíduo puramente individual, histórico, psicológico, numa palavra,puramente determinado. Mais ainda, a moral pura não é só fundada no discurso, ela o funda igualmente e, portanto, identifica-se com ele. Contudo, ela acaba por compreender como essencialmente ligada a história. O discurso não existe em si, numa espécie de sétimo céu,mas é discurso de um homem histórico num mundo determinado.(WEIL,1990, p. 57)

Um bom exemplo é o funcionamento do comércio em Utopia onde importa mais aquilo que se produz e satisfaz, não almejando enriquecer-se com o que sobeja. Tal sobra será apenas aproveitada como empréstimo ou no pagamento de tropas mercenárias no caso de uma guerra3, como isso, arranca-se logo na origem as ervas dadinhas da corrupção e da tirania4.

FORTUNA E DIGNIDADE HUMANA
Se para More uma das grandes virtudes de quem administra uma sociedade (como se apresentava Utopia) era criar leis que assegurassem a própria liberdade de reflexão e sabedoria para com os seus cidadãos, em outra tangencia Maquiavel afirma que o príncipe deve estimular os seus súditos a desenvolverem atividades, tanto no comércio, na agricultura ou em qualquer outro ramo, proporcionar entretenimentos (evitando o desprezo e o ódio), assim como amá-lo e temê-lo em devidas proporções, entretanto, por mais prudente que seja esse governante, sempre deverá recear algo que está acima da própria posição social ou mesmo da capacidade de agir corretamente; a fortuna.
Tida como com delimitador da ação humana, esta força que pode mudar o curso dos acontecimentos e que está muito próxima da noção de destino, terá o poder de estar sempre presente, influenciando não só os desfechos governamentais, mas a capacidade do governante de conquistá-la através da coragem, do entusiasmo e da virtú, como o próprio Maquiavel cogita.

[...] às vezes me sinto um tanto inclinado a esta opinião: entretanto, já que o nosso livre-arbítrio não desapareceu, julgo possível ser verdade que a fortuna seja árbitro de metade de nossas ações, mas que também deixe ao nosso governo a outra metade, ou quase. (MAQUIAVEL, 2004, p. 119)

Concluirá assim que, a sorte muda e os governantes que continuam fiéis a seus princípios só obterão êxito na medida em que seus artifícios foram condizentes com as circunstancias, mais se, se oporem a ela, o resultado fatalmente será infeliz, nesse caso será melhor ser implacável do que cauteloso. O próprio discurso sobre a fortuna, nos dá uma idéia da flexibilidade da vida política quando está em jogo o próprio poder, deixando o valores atribuídos a ética em segundo plano, não respeitando direitos e deveres.
More também nos fala da imprevisibilidade, principalmente no que se refere a guerras, entretanto, embora o povo utopiano tema o inesperado, também acreditam que o homem é livre para agir, sendo que a principal ação será a da própria virtude que advêm da busca do prazer espiritual juntamente com a inteligência e a alegria.
Tal é a teoria dos utopianos acerca da virtude e do prazer. Pensam que a razão humana não pode conceber teoria mais perfeita, a menos que uma revelação divina,caída do Céu, seja inspirada ao homem.[...]mas uma coisa acredito firmemente: sejam as suas leis boas ou más,o certo é que em parte alguma encontrei povo mais feliz e uma comunidade mais floresvente (MORE, 2002, p. 82-83)
Os cidadãos de Utopia irão representar o oposto de uma Europa, e em particular de uma Inglaterra, que Thomas More observava perder gradativamente seus valores, instituindo fronteiras sociais entre o povo, a burguesia e a nobreza e criando uma desigualdade que progressivamente caminhava em direção ao capitalismo através das propriedades privadas e das distorções sociais.
A crítica contestará a inversão da ordem do ser para a ordem do ter, que por sua vez está relacionada com os prazeres frívores (que causarão dores e doenças) e não com os prazeres físicos (o trabalho e o lazer). Temos assim, um discurso para uma revitalização da dignidade humana, em que valem mais os cidadãos que os bens materiais. Não é por coincidência que a ilha de Utopia tem um governo democrático e similar ao republicano idealizado também por Platão.

Assim, toda a ilha é uma grande família. Depois de terem posto em reserva para si próprio uma provisão suficiente, que equivale às necessidades de dois anos, na incerteza do ano seguinte, os excessos são expostos para outros países. [...] (MORE, 2002, p. 70)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Entre as duas obras analisadas temos dois discursos quase antagônicos no método de alcançar um bom governo. A concepção da ilha de Utopia está toda teorizada em duas idéias: na busca do prazer pura e saudável e na não existência da propriedade privada, mas só sendo possível se houver um governante integro e democrático. Para Maquiavel essa mudança teria de ser feita com valorosa atenção a história e a fortuna, tendo o governante as qualidades necessárias (a virtú) para se prevenir com antecedência de eventuais conflitos, nem que para isso tenha que empregar a força. Enfim, podemos concluir que o discurso de Maquiavel e de Thomas More são avessos. Para More, a sociedade pode viver conforme a natureza e ao mesmo tempo orientado pela razão, enquanto que para Maquiavel esta deve apenas obedecer.

1 Nesse período More estava ligado à embaixada diplomática enviada pelo Rei da Inglaterra a Flandres a fim de resolver um desacordo surgido entre este pais e o príncipe Carlos de Castela.
2 Segundo Jean de Lery em Viagem à terra do Brasil ( São Paulo: 1980) Thomas More engajou o termo “utopia” após ficar maravilhado com o relato de Américo Vespúcio sobre a ilha de Fernando de Noronha, quando, nas expansões marítimas, a descoberta da América trazia consigo a idéia de um paraíso, o local “perfeito
3 Segundo Hitlodeu o governo de Utopia preferiria expor à morte os estrangeiros do que seus próprios cidadãos, contratando aqueles que vivem exclusivamente para as guerra e que [...] sustentam a vida procurando a morte. (MORE, 2002, P. 96)
4 Mesmo que o principado seja vitalício, pode haver o deposição se comprovar que o regente cometeu alguma tirania.


REFERENCIAS
BLANDY, Lauro S.; FONSECA, Eduardo Nunes. Pequeno dicionário filosófico. Editora Hemus: São Paulo, 1977.
BRANDÃO, Helena H. Nagamine. Introdução à Análise do Discurso. 7 ed. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1998.
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Martins Fontes: São Paulo,2004.
MORE. Thomas. A Utopia. Ed.Martin Claret; São Paulo, 2002.
WEIL, Eric. Filosofia Política. Tradução e apresentação de Marcelo Perine. Edições Loyola,São Paulo,1990.

16 de mai. de 2009

1° Colóquio Nietzsche - Do Crepúsculo à Aurora

O Grupo de estudo Hermenêutica e Literatura surgiu em Setembro de 2008, tendo como idealizador o Professor Almir, que, por motivos diversos (entre eles já possuir um outro grupo de estudo) passou a função de orientador para o professor Wandeilson. Antes mesmo de completar um ano de existência, mas com muitos encontros, projetos e artigos realizados por seus membros (que inclui discentes dos cursos de Filosofia, Letras e Psicologia) estamos conseguindo realizar a nossa primeira semana acadêmica, sendo que, uma grande parte dessa realização se deve a obstinação e, por que não dizer, delirium do nosso orientador e amigo Wandeilson.

Os cartazes - Parte V - Horror


Os primeiros cartazes dos filmes de terror tiveram uma grande influência do expressionismo alemão, cartazes que exageravam na exposição dos seus vilões, com inventiva exploração do contraste luz/escuro, assim como uso de sombras e o clima soturno, principalmente se o filme era sobre vampiros. Na década de 50 as vítimas também começaram a dar as suas caras nos cartazes, sempre, claro, gritando ou sendo mortas. Nas décadas de 80/90 voltaram a utilizar os desenhos, ou desenhos sobpostos as fotos. É o que podemos perceber em Sexta-feira 13, mas foi também a partir dessas décadas que começou-se a usar a computação gráfica em belos cartazes como o de A Mosca e Drácula, porém, o clima retro sempre prevaleceu, em Uma noite Alucinante, A hora do espanto e os recentes GridHouse e O retorno dos Malditos (um dos melhores da última safra) isso é bem claro. Lembrando que, quando assunto é poster de filme de terror/horror , os orientais estão fazendo belíssimos trabalhso que mostrarei posteriormente. Para terminar o cartaz do primeiro A Hora do pesadelo. Por quê? Foi um dos cartazes de filme de terror que decoraram meu aniversário de 14 anos.

A outra relação são de filmes que eu não conheço (exceto Piranhas e Maniac), que eram considerados Filmes B (de Bomd+) e talvez só passaram no último Corujão. Pérolas perdidas por aí. Vejam e se deliciem.


Os Cartazes - Parte IV Os nacionais

Não posso deixar de confessar que estas são escolhas sentimentais, tanto ao que se refere a própria proposta da obra, como as denúncias de Pra frente Brasil e Quem matou Pixote?, como a própria criatividade, como em A dama do cine Shangai e Capitalismo selvagem. As obras-primas do nosso cinema; Deus e o Diabo, A hora da Estrela e Central do Brasil são por se só a própria essência dos filmes. E como não incluir Vidas secas e Bras Cubas, se os dois não deixam nada a desejas em relação as obras nas quais se inspiram ? Observando mais atentamente os atores que participiram dessas obras filmicas percebemos que uma atriz se destaca, e a versátil Fernanda Torres, "bicho do nosso cinema", ela está em O que é isso, companheiro?, Com silença, eu vou a luta, Capitalismo selvagem, Inocência e Eu sei que vou te amar, cartaz pela qual eu sou apaixonado desde sempre. A criatividade e o talento dos novos designers podem ser conferidos em Nome Próprio, Baile perfumado, A ostra e o vento e O céu de Suely. Por fim o cartaz de Bonitinha, mas ordinária, O filme é duvidoso (mas tenho que adimitir que gosto), mas o cartaz é surpreendentemente de bom gosto.

25 de abr. de 2009

Os Cartazes - Parte III - Os Polêmicos


Recentemente o cartaz do filme 'Zack and Miri Make a Porno' (que aqui teve um título destruidor que eu prefiro nem repetir), foi proibido nos EUA. Embora os personagens estivessem perfeitamente vestidos, há uma sugestão de sexo oral. O filme de Kevin Smith possui diálogos engraçadíssimos sobre o mundo do cinema e é tão simpático que até temos uma Traci Lords (deusa-pornô da década de 80) completamente vestida, entretanto, tiveram que mudar o cartaz, como o seguinte texto 'Seth Rogen e Elizabeth Banks fizeram um filme tão excitante que nós só podemos mostrar esse desenho”, enquanto os atores estão lendo um livro numa floresta encantada. Claro que não é a primeira vez que isso acontece.
Ano passado o filme Diário de uma Ninfomaníaca teve seus cartazes devidamente retirados das estações de metrô de Paris. E nesse caso nós perguntamos: - E como ficam os comerciais de roupas íntimas da Victória´s Secret? Dizem o que problema foi o título.
Os europeus possuem essa fama de “liberais”, mas (como perdão do trocadilho) com eles o buraco também é mais embaixo. Lembro da polêmica que se criou sobre o filme Je vous salue, Marie, aquele filme que foi até proibido no Brasil porque contava a estória de uma Maria moderna que estava grávida de um messias. Tudo muito trivial, porém, esta Maria aparecia nua e o futuro profeta era um “capetinha’. O cartaz ajudou na controvérsia do filme e gritava “ Ei! sou polêmico”. Lembro que não gostei do filme, hoje sabendo que o diretor foi o renomado Jean-Luc Godard, acho que teria que rever os meus conceitos.
Outro diretor famoso que também sofreu retaliações por causa de um cartaz foi Costa-Gravas e o filme foi o excelente Amén. Símbolo nazista, um termo católico, um nazista e um padre, Acho que só os judeus e os muçulmanos pegaram o espírito da coisa.
Os filmes Wonderland e Ken Park, possuem como um dos seus temas principais; o sexo. O primeiro conta a trajetória do o ator pornô John Holmes morto em 1988, vítima de Aids e que ao longo de mais de 2 mil filmes, fez nada menos do que 10 mil mulheres (e alguns homens) felizes à custa de seus, digamos, dotes naturais. E são esses dotes que aparecem na capa do filme. Claro, para quem conhece a capa do disco do grupo Rolling Stone, sabe que nada se cria tudo se... O segundo estampou simplesmente um garoto fazendo sexo oral em uma mulher (matura) e gostosa. Nos dois casos os cartazes pegaram o espírito do filme, o primeiro é explosivo e o segundo de mau gosto.
Por fim, o irretocável Brokeback Mountain. Um cartaz simples que até poderia ser um desses cartazes de filme de “bang-bang”, mas a polêmica do tema, que aborda a história de dois vaqueiros que vivem um romance proibido por 20 anos,veio antes e em países como o Japão, o cartaz foi proibido. Em alguns países colocarem os casais (heteros!) devidamente juntos e feliz. Imaginem a decepção de quem foi assistir pensando que se tratava de uma continuação de ... E o vento levou. Eu pagaria para ver.

18 de abr. de 2009

11 de abr. de 2009

Os cartazes - Parte II

Vamos para mais posters preferidos. Agora são aqueles cartazes que saiam em forma de ficha na revista SET, que por sinal, lançou seu ultimo número este mês. Colecionei a revista desde o primeiro número (1987) até o ano de 2004, sem sombra de dúvida foi meu melhor amigo (ou amiga) de infância. Durante muito tempo a revista trouxe oito fichas de filmes de várias épocas, depois (acho que no início de 2000), passaram a ser só quatro e por fim sumiu. Recentemente apareceram novamente, mas apenas os filmes mais modernos. A preocupação com a ficha técnica e as notas que vinham atrás dos micro-posters eram um deleite para qualquer cinéfilo. Os cartazes mais antigos eram originais, isto é, com grifos em inglês, frances ou alemã (dependendo da nacionalidade). O primeiro que eu me lembro é d´O homem elefante, do David Lynch, em preto e branco, como o filme o é. Passei um bom tempo imaginando como seria o rosto do John Merick e imagino que era essa a intenção do autor do cartaz, despertar a curiosidade. Espaçou-se mais de vinte e cinco anos para assisti-lo. Esse ano conseguir retirar o capuz do filme, perfeito. Outro cartaz em preto-e-branco é do filme Singles (vida de solteiro), o filme ao contrário é muito colorido e alegre, nas a intenção era passar a idéia daquele grupo que usava camisas de flanelas e ouviam músicas de grupos de rock de Seattle. The rocky horror pucture show e Crimes de paixão são simples e deliberadamente provocantes, o primeiro até lembra o de Garganta profunda, o segundo é estrelado pela Kathleen Turner, nunca mais esqueci a China Blue e seus encontros sexuais.
O cartaz de Brazil (de Terry Gilliam) é uma obra-de-arte, o curioso é que em outros países o cartaz foi diferente, grotescamente inferiores.
Febre da selva (de Spike Lee) e Platoon (de Oliver Stone) tentam divulgar a alma do filme e conseguem ser poéticos e polêmicos (se referindo aos americanos, é claro!). O de O povo contra Larry Flynt foi proibido logo na primeira semana, lembro que até a SET o quis na capa, mas não deu, era ofensivo demais, mais o que colocar no cartaz do filme que era a biografia do dono da Hustler , a revista mais ginecológica na América? Lembrei do cartaz de Matador (que também demorou alguns anos até desvendá-lo) e o de O Amante, tão terno que esquecemos que se trata de um filme com um tema meio pedófilo.
Um dos melhores site voltado só para essa arte é o IPM Awads que publica todos os cartazes que saem por aí (até mesmo os promocionais de seriados e minisséries americanas, que em alguns casos estão superando até os dos longas) e todo ano elege os melhores, segundo os mesmo os requisitos são essencialmente design gráfico e apelo ao público, esses são os vencedores dos anos de 2000 a 2008. Você concorda?

9 de abr. de 2009

Os cartazes - Parte I
























Uma coisa que sempre me fascinou foi cartaz de filme, ou o famoso “pôster”. Não existe definição melhor do que dizer que eles são os primeiros comerciais de um filme, digo ‘primeiros”, porque há muito tempo as distribuídas estão criando mais de um, e depois, claro, aparecem os famosos trailers. Mas no princípio era o cartaz.
Um dos primeiros que vem à minha mente é o cartaz do filme “A filha dos trabalhões”, não por acaso, foi o primeiro filme que eu assistir no cinema. A história é engraçada. Minha mãe queria fazer compras na Rua Grande e resolveu me deixar no Cine Passeio (que Deus o tenha!), pois eu não queria sair da frente do pôster. Depois de conversar com os bilheteiro ficou acertado do mesmo me posicionaria na ultima fila, perto da entrada, para facilitar a procura quando a minha mãe voltasse. E então as luzes se apagaram.
Fiquei maravilhado, não pelo filme (que era muito engraçado, pelo menos eu achava!), mas pela própria estrutura daquele prédio, aquelas caixas de som, as milhares de poltronas (assim eu via, ou imaginava) e claro, aquela televisão de 10 mil polegadas. O que era aquilo? Para um menino que até então só assistia filmes (muitos, á propósito) em uma TV de 14, aquilo era o paraíso. Ninguém batendo na porta, ninguém mandando você almoçar, ou jantar, ou dormir, ou respirar. Ninguém, só você e um mundo que alguém criou e que durava uma hora e meia. Fiquei tão deslumbrado que, quando a minha mãe chegou (atrasada, já que eu estava assistindo a sessão seguinte), ela não me encontrou na poltrona que o bilheteiro tinha dito que eu estava. Houve certo “PÂNICO”, algumas pessoas me procurando e só alguns minutos depois é que eu percebi uma lanterna iluminando o meu rosto. Eu estava na primeira fila e tinha sete anos de idade. A partir desse encontro, que se transformou em uma paixão avassaladora e dura até hoje, a primeira coisa que indicava e indica os nossos constantes encontros é o cartaz fixado em uma moldura de vidro na porta do cinema.
Os pôsters de cinema possuem sua história, antes não existiam trailers e toda a publicidade era feita através do cartaz e das fotos promocionais que chegavam poucos dias antes do filme ser exibido, era na maioria desenhos (muitos realizados por grandes artista mundiais), quase sempre dos rostos dos protagonistas, depois começou a ser utilizados técnicas encima das fotos das personagens e mais tarde as fotos propriamente ditas. A década de 70 foi a mais crua, sem muita “frescura’; foto, título, subtítulo e pronto!. A de 80 é a mais fraca nos E.U.A, a mais sensual no Brasil (quem não se lembra das obras adaptadas do Nelson Rodrigues e do Jorge Amado) e as mais criativas na Europa (na minha opinião, claro) e a de 90 a de transição. O século XXI trouxe um design de posters e de cartazes promocionais sedento em aproveitar as mais sofisticada tecnologias para impactar o público cinéfilo, mesmo porque, surgiram vários programas que ajudam até um amador a criar um cartaz para o novo filme do Coppola.
Se você parar para refletir, os cartazes muitas vezes, nos impulsionam. Que jogue a primeira pedra quem nunca levou uma “bomba” para casa depois de passar em uma locadora e escolhei um filme só por causa da capa, e não estou falando de filmes eróticos.
Recentemente uma revista escolheu os cem melhores cartazes de todos os tempos, concordei com esses que estão aí. Claro que deve ter havia vários critérios, como; aspecto histórico, design gráfico, a velha e insubstituível criatividade e o fascínio que a obra causa nas pessoas. Fascino, só isso pode justificar a presença do cartaz do filme Showgirls entre os laureados.
Por coincidência, ele já estava entre os que eu tinha escolhido como os meus preferidos. Houve até uma polêmica por causa da denúncia de um certo plágio, pois já havia uma obra parecida e também, claro, os americanos torceram os seus narizes arrebitados e não aceitaram o cartaz. Lembro dos meus amigos do Liceu ficarem babando diante do cartaz, até eu o queria.
Entre os premiados, sou apaixonado pelo de Laranja mecânica (quem não é?), Beleza americana (simples e triunfal), Nosferatu (apesar de nunca ter assistido ao filme),Dogville, Pulp Fiction (também gosto do Kill Bill) e Um corpo que cai. Entre as coincidências estavam O ultimo tango em Paris e O exorcista , dois pôster que, por se só já nos oferecem uma amostra do que vem pela frente.
Estranhamente alguns dos filmes que eu mais gosto tiverem cartazes duvidosos, os musicais Fama e Flashdance são exemplos. O primeiro (apesar de possuir um outro com um casal ao piano) só tinha o nome do filme, o segundo era um enorme fotografa com a “Alex” descansando, nada que um bom “boca a boca’ não resolvesse e os filmes se tornassem fenômenos de bilheteria.
Outros dois cartazes que me fascinaram foram os de “Drácula” (pensei até em quebrar o vidro do Cine Passeio) e o de Beleza Roubada, na qual alguns garotos alemães não só pensaram, mas roubaram todos os cartazes em que a Liv Tyler estava fazendo aquele ‘biquinho” lindo. O filme é do Bertolucci, e pensando bem, todos os cartazes dos filmes do diretor são fantásticos, veja o do Pequeno Buda e Os sonhadores e digam se estou errado.
Os cartazes de Magnólia e Paris, eu te amo, já nos oferece uma pequena porção do que iremos encontrar, são duas obras de arte, sem dúvida. Também gosto muito dos posters de O silêncio dos inocentes e Notting Hill, são exemplos de cartazes que você não entende muito bem, porém, quando saímos do cinema os vemos com outros olhos. E por fim os cartazes do Pedro Almodóvar, todos muito criativos, coloridos, espalhafatosos, geniais...Como tinha que escolher só um , escolhi o de Volver. E os seus , quais os pôsters da sua vida ?

19 de mar. de 2009

3ª Exposição Virtual - Campo de São Bento






Um conto - Quando alguém ousou falar em paixão


autor: Flaviano Menezes

1 - Ela.
O carro e o seu coração estavam a 80 quilômetros por horas e ela ali, parada, diante daquele espelho. Um pequeno espelho, mas que bastava para refletir seus olhos tristes prestes a quebrar aquele retrovisor com tantas dúvidas. Pensava no grande erro que tinha a poucos instantes cometido ao confessar para alguém que estava sentindo algo mais do que o previsível entre dois amigos de trabalho. Estava diante de suas ações precipitadas e se culpava por isso. Sentia que tudo iria se repetir novamente; as mesmas imprecisões, a mesma solidão, outras infinitas dores sem sentido.
Alguém lhe perguntou na saída: - Estais melhor?
Teve vontade de responder-lhe; - Não estava com dor de cabeça para aliviar com uma conversa- homeopática!
Mas por ironia do acaso, a mesma pessoa que perguntara era agora a que a fazia sentir um orgulho frustrado por ter sentimentos tão risíveis quanto aquele que a desnudava naquele momento, daquele jeito. Resolveu não responder e apenas o olhou.
Queria acreditar naquelas palavras tanto quanto naquele olhar que, ao contrário, lhe pedia para beijá-lo novamente. Queria igualmente abraçá-lo, mas não com aquele gosto de pena que veio contra a sua arrogância. Era tarde para mais uma troca de favores, e assim, contentou-se com aquelas mãos ásperas contra suas pernas, apertando-as com uma força que ardia todas as suas expectativas. Saiu do carro.
Andou apressada, como se quisesse afastar-se o mais depressa possível daquele estado de ilusão, mas só ela sabia o quanto seriam difícil deixá-lo e encontra uma outra pessoa que a criticaria, ridicularia e lhe mostraria que tudo na vida vale a pena, menos dizer certas verdades que irão cedo ou tarde nos matar aos poucos. Teria que enfrentar a si mesmo.
Pensou em chorar; - Tenho que chorar, aconselhou-se.
- Chora garota imbecil! Dizem que faz bem. Mas as lágrimas não vieram, nenhuma se materializou, nenhuma quis representar a imagem da mulher que começaria a caminhar por um calvário cheio de esperanças cor-de-chumbo, uma mulher como tantas outras.
Continuou a andar, agora não sentia mas os meus passos, não conhecia o trânsito, não encontrava o caminho, apenas as batidas do tempo em meu rosto, como um vendaval de lembranças e esperanças perdidas e as lições não aprendidas. Caminhava entre dúvidas e tudo o que tinha como certeza era que cometera um grave e irrecuperável erro ao declarar a alguém: - Acho que estou apaixonada por você!
Poderia ter dito outra coisa, ou a mesma com outro sentido, ou a mesma com o mesmo sentido mas com outra intensidade. Não apaixonada, não um termo tão avassalador que nos torna prisioneiro de uma emoção tão instintiva. Mas foi categórica e intransigente; - Apaixonada! – repetiu.
Foi o que veio a cabeça, foi o que o precário vocabulário de uma moça que saiu do interior para ser advogada e conseguiu apenas um modesto emprego em uma empresa de transportes conseguiu extrair, foi a maneira mais simples de se condenar e livrá-lo como seu amado algoz.
Estava no caminho errado. Ali, naquela pessoa não encontraria nenhuma reciprocidade, no máximo, uma reação de carinho com doses sensíveis de pena, mas amparo ela não queria e talvez por isso, alguns segundos depois, disse-lhe; – Mas lutarei para esquecê-lo...
Estava no caminho errado. Ali não era a direção da minha casa, mas o que importava. Estava tão atônica com a sua coragem que poderia matar uma estrela e tão frágil que, uma segunda olhada para aquele carro que estava partindo poderia lhe aniquilar.
Perdia naquele momento a direção não só da sua morada, do seu porto-seguro, mas também da razão, o seu inquestionável senso prático e a felicidade de se estar só no mundo. Agora seu mundo intensamente giraria em torno de alguém que não poderia lhe retribuir esse amor, pois já era o mundo de um outro porém.
Seus olhos. - Ah! seus olhos melancólicos. Tão tristes que até a Lua não teve coragem de iluminá-los. Olhava-lhe com tanto carinho, cheia, sorridente, graciosa, mas consciente que aquela não era a hora de se mostrar amiga, ficou de longe tentando profetizar algo que a própria moça não queria saber, talvez uma breve tempestade.
- Apaixonada. Por que paixão? Não um sensível gostar, ou um falso amar. Por que ardia algo em seus pressentidos cometimentos desde quando aquele homem sorriu para ela, não um sorriso carinhoso e afável, mas um comprimento que dizia algo, mesmo que ele próprio tentasse disfarçar.
Mentiu ao dizer que, em nenhum instante lhe foi dada alguma esperança, teve todas as esperanças do mundo quando sentiu o seu perfume, a sua pele num aperto de mão, na simples menção do seu nome.
- Um simples sorriso pode desabrochar arrebatadoras paixões, não devemos sorrir tão facilmente. Pensou. E como seu sorriso era iluminado, tão iluminado quanto aqueles faróis que se aproximavam dela, aquela luz era tão forte quanto a sua estima por ele, aqueles faróis
– É ele! É ele! Voltando para alguém que realmente o ama - pensou.

2 - Ele
Estava estarrecido, perplexo e dissimulado. Sempre suspeitou daqueles olhos doces observando-o, mas chegar ao ponto de se declarar... Ele não esperava, realmente ele não esperava.
Quando ouviu a pergunta (- Você pode me dar uma carona?), suas pernas começaram a tremer, não sabia o que responder, apesar de já haver pensado em todas as formas de lhe oferecer a mesma.
Já havia pensado, na verdade, em todas as formas de tê-la em meus braços, fantasiado uma noite de amor em que pudesse desenhar o signo do prazer em seu corpo. Como ele a desejava, olhava seu corpo jovem e se excitava apenas em imaginar acariciando suas pernas, abrindo sua blusa e mergulhando em seu sexo.
Mas o pedido o pegou de surpresa. – Claro! Sim! Como não!
Nos primeiros dez minutos ninguém disse nada, um silêncio que quase o sufocou de êxtase. Notou que discretamente a moça levava a língua a molhar seus lábios como um precedente muscular para melhor expulsar alguma frase de efeito que iniciasse uma conversa trivial. Enfim, falou algo, mas ele não entendeu.
Tentou compreender qual caminho seguiriam até chegar ao ponto em que ela pretendia realmente alcançar. Na verdade, não lembrava nem o que disse antes, tudo se resumia em um pequeno instante em que ele parou o carro, ela o olhou e então disparou; - Acho que estou apaixonada por você!
Não só ele notou seus olhos ficaram mais iluminados, talvez por uma camada de lágrimas que não ousavam cair, mas também sua mão direita não resistira tão precioso ato, reagindo contra a sua sensatez máscula e espontaneamente afagando o ombro esquecer de sua colega de trabalho.
O rapaz tentou artificialmente mostrar uma embaraço que não existia. Houve, de fato, uma traição por parte de um sorriso desleal sobre uma tímida fidelidade quando ele a olhou com toda a ternura que pudesse lhe confortar naquele momento. Estava completamente feliz e a única coisa que imaginava era parar o carro e beijá-la calorosamente.
Ele a levou para uma rua perdida em um lugar qualquer e agradou-a com um abraço desajeitado. Por um momento, que não sabia se havia durado um minuto ou uma hora, pensou em suas vidas seguindo o mesmo caminho, mas lembrou-se de suas obrigações, de suas regalias e do emprego que poderia perder.
Enquanto ela se aconchegava em seu peito com um porto-seguro, ele inclinava a cabeça, como um tormento que o puxava para baixo, disse alguma coisa que, por sua vez, ela não entendeu e disparou com o carro para o centro da cidade.
Não disse mas nada. Pensou em ser o mais frio possível para que ela sentisse ira de seus próprios ato precipitados ou mesmo, ódio por amar alguém tão insensível, apenas passou a mão em suas coxas com um bom macho querendo dá esperanças aos seus instintos. Ela também não disse mas nada, apenas saiu do carro.
Ele ainda a olhou com a esperança de que ela ainda o olhasse da mesma forma quando disse aquela frase. Se ela o olhasse novamente...
Andou mais alguns quilômetros, parou e pensou em tudo que iria perde de voltasse. Valia apena voltar... Sim!
- Pros diabos o emprego, a mulher que o sustentava, a vida mansa de um executivo não-faz-nada. Ele também estava apaixonado e tudo se tornou mais real quando ele a vi parada na calçada, esperando que ele voltasse.

2 de mar. de 2009

LeiA-me : Resenha - Montello: O Benjamin da Academia

O livro Montello: O Benjamim da Academia, de José Neres (professor de Literatura da UFMA e autor de Os epigramas de Artur, em parceria com o professor Dino Cavalcante, de 2000; Estratégias para matar um leitor em formação (2005); 50 pequenas traições (2007), dentre outros) é a princípio dirigido ao público que gosta de literatura e principalmente deseja saber como um escritor consegue a “imortalidade” da Academia Brasileira de Letras. Nesse caso, seguiremos os últimos passos percorridos pelo maranhense Josué Montello até ingressar na tão almejada Casa de Machado de Assis.
José Neres não se apresenta como um pesquisador que se preocupa em parecer “sofisticado”, procurando sempre um termo pomposo para aparentar ser mais acadêmico, algo que acontece em demasia em nossas atuais, eruditas e entediantes obras bibliográficas. A análise sobre como o autor de Os tambores de São Luis conseguiu em 1954 a cadeira que outrora pertenceu ao também maranhense Artur Azevedo é menos acadêmica do que outras obras desse gênero e talvez por isso torna-se uma vantagem lê-la, isso porque, a finalidade da obra parte exatamente da preocupação de um pesquisador em apresentar os fatos, sendo ele próprio um observador, com notas necessários mas sem aqueles dispensáveis comentários tendenciosos.
Josué Montello nasceu em São Luís, em 21 de agosto de 1917. Estudou na escola Modelo Benedito Leite, onde fez o curso primário, e posteriormente no Liceu Maranhense. Ainda no Liceu dirigiu A Mocidade, onde publicou seus primeiros trabalhos literários. Ingressa na Sociedade Literária Cenáculo Graça Aranha e começa a colaborar nos principais jornais da cidade (Folha do Povo e O Imparcial). Ao mudar-se para Belém do Pará, consegui publicar seu livro de estréia e aos dezoito anos torna-se membro do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Muda-se novamente, agora para o Rio de Janeiro, em 1938 e integra o grupo de intelectuais “Dom Casmurro”, colaborando com esse periódico e outros jornais da capital. Em 1939, aos vinte dois anos de idade estava na Academia Brasileira de Letras lendo seu artigo “A índole da língua e a frase de Machado de Assis” e iniciando uma aspiração que só conseguia concretizar quinze anos mais tarde: a de ser um imortal das letras brasileiras.
O livro de José Neres começa esclarecendo porque Montello já se mostrava um acadêmico antes mesmo de adentrar com o fardão naquele templo das letras e como era querido pelos outros escritores e até pelos críticos literários, como o discordante Agrippino Grieco, que, em nota sobre a eleição de Montello para a Academia declarou essa pérola; “Isto não é novidade, o Montello é acadêmico desde a escola primária.”
A política interna da Academia, as expectativas, a candidatura, as cartas de pedido de voto, o auxílio indispensável de Viriato Corrêa, a votação e a vitória de Montello para a cadeira de número vinte e nove são alguns dos assuntos desvendados por Neres nesse necessário e instigante trabalho de pesquisa, que se utiliza também de cartas, notas de jornais e fotos do momento mais glorioso que um escritor pode almejar. Em suma: um livro muito bem escrito, em linguagem acessível e que, sem grandiloquências, dá uma lição de como apresentar um grande escritor para uma nova geração de leitores (e pesquisadores) que está se formando no Maranhão.


Flaviano Menezes