6 de ago. de 2009

Cartazes - Sessão da Tarde


Sim, são aqueles inesquecíveis filmes que, sempre quando tinha algum feriado nacional, passavam no plim-plim, e por incrível que pareça muitos deles já haviam passado também nos melhores cinemas longe da sua cidade.
Comecemos por O pássaro azul, um filme que transborda magia. Lembro da versão com a Shirley Temple e que é de 1940 (!!!), o cartaz dar ênfase a passagem dos irmãos pelo barco das encarnações, quando observam as crianças felizes (ou não) por terem que viajar ao encontro dos seus futuros pais. O ar fantasioso do castelo ao fundo ajuda a enriquecer atmosfera lúdica da obra. Outra versão é a de 1976 e era estrelado por Elizabeth Taylor, Jane Fonda e Ava Gardner, o pôster é tão belo e esteticamente bem distribuído que é difícil comparar as duas obras.

As sete faces do Dr. Lao (1963) é outra pérola das tarde globais e também outro cartaz que aproveita cada centímetro para expor as situações que ocorrerão na trama. Temos os principais em primeiro plano e os secundários nas bordas, como se fosse uma pequena estória em quadrinho.

Fúria de Titãs (1881) foi um épico sobre a mitologia grega cercada de astros hollywoodianos por todas as partes. Porém, outras grandes atrações eram as criaturas, (como Pégasus e o Minotauro) e são eles que ficaram em primeiro plano no cartaz. O elenco, bem, parece os indicados a alguma categoria do Oscar.

Elvira, a rainha das trevas (1988) poderia ter um cartaz melhor, ou mais underground, como sua inesquecível protagonista. Não sei, a idéia da Elvira ser uma nova Joana D´arc é meio contraditório.

Irmão Sol e irmã Lua, teve dois cartazes, mas esse foi bem mais ousado, ponto para o sempre comportado Franco Zeffirreli (Romeu e Julieta) ao escolher uma cena chave (a renúncia de Francisco) para compor esse cartaz.

O Clube dos cinco (1985), E.T (1982) e Robocop (1987) também escolheram cenas chaves para compor seus pôsteres. Lembrando que o cartazes d´O clube dos cinco é muito parecido com o d`O massacre da serra elétrica II (que é de 1986). Ironia? Não, foi proposital. O cartaz de Robocop por muito tempo figurou entre os melhores já produzidos, não entendo, é uma foto!

O cartaz de Procurando Susan desesperadamente (1985) é muito bem feito, aparentemente parece uma capa da revista Nova, mas tem um ar de rebeldia e o nome propositadamente inserido de lado amplia a idéia de “figuras tachada” das personagens.

Por fim, o clássico dos clássicos da Sessão da Tarde; A Lagoa azul (1980). O cartaz original parece a capa de uma Sabrina. É a cara de uma Sabrina! possui até um resumé abaixo, mas dificilmente um artista conseguiria desenhar uma musa como a Brooke Shields, linda. É, realmente, pra que a lagoa? Abaixo o cartaz do DVD, poético.






O Amor segundo Hannah Arendt


Em O Banquete, Platão descreve um encontro de amigos que decorreu na casa de Agatão, em 416 a. C., no qual se festejava a sua primeira vitória no festival do teatro de Dionísio, em Atenas. A historia relata uma discussão entre doze convidados, incluindo o grande filósofo Sócrates. Depois de prestarem homenagem aos deuses, Exímaco, um médico, introduz o tópico da discussão do dia: O Amor. Depois de várias posicionamentos, Sócrates enuncia sua máxima satisfatória daquela questão, quando afirma; “O amor sente falta de beleza e de verdade. Qualquer pessoa que veja a beleza com os olhos da alma será […] amiga de Deus e imortal, se é que algum homem o pode ser”.

Para a pensadora alemã Hannah Arendt o amor também é falta, assim como algo que só se aprende com os olhos da alma, nesse caso, o amor (que na linguagem socrática aproxima-se mais da entidade de Eros, isto é, como desejo de algo que não temos) é também busca. Para a autora de A vida do Espírito, os homens amam também a sabedoria e começam a filosofar porque não são sábios, isto é;


[...] Ao desejar o que não tem, o amor estabelece uma relação com o que não está presente. Para trazer à luz e fazer aparecer essa relação, os homens procuram falar dela – assim como o amante procura falar do amado. É porque a busca empreendida pelo pensamento é um tipo de amor desejante que os objetos do pensamento podem ser coisas merecedoras de amo – beleza, sabedoria e justiça. (ARENDT, 1991, p. 134)


Em 1929, quando explodia a quebra da Bolsa de Nova York, a jovem Hannah Arendt ainda estava assimilando as idéias do seu primeiro mestre, Martin Heidegger, da Universidade de Marburgo (formando-se posteriormente em Filosofia em Heidelberg), quando ganhou uma bolsa de estudos e mudou-se para Berlim. Quando o líder político Hitler subiu ao poder, em 1933, ela precisou fugir da Alemanha e embarcar para Paris, onde entrou em contato com vários intelectuais que já havia conhecido na Universidade de Heidelberg.

Porém, durante a Segunda Guerra Mundial, o governo francês contribuiu com os invasores alemães e, por ser judia, Hannah foi enviada a um campo de concentração, em Gurs. Porém, conseguiu escapar e aportou em Nova York, em maio de 1941.

Tornou-se uma exilada e ficou sem os direitos políticos até 1951, quando conseguiu a cidadania norte-americana. A partir desses acontecimentos, assim como a decepção com o posicionamento do seu antigo mestre (e afeto) Martin Heidegger, que defendeu algumas idéias dos governos vigente, Hannah Arendt começou a combater os regimes totalitários e condenou-os em seu livro "As origens do totalitarismo".

É a partir dessa obra, que alguns autores afirmam ser um tipo de ruptura com a Filosofia, que o pensamento arendtiano irá assumir o adorno do amor mundi, havendo uma priorização das experiências políticas fundadoras, principalmente as grego-romanas. Arendt promove assim, uma severa crítica à Filosofia Política e uma busca do passado como algo ainda novo, uma busca, segundo ela, “de um conjunto de experiências voltadas para a felicidade”.

Com essa obra os Estados Unidos assim como o resto do mundo descobrirá uma pensadora que posteriormente indicará seu método principal de investigação: o pensar apaixonado, isto é;


[...] a possibilidade de uma síntese entre o pensar e o estar vivo. Pensar não é pensar sobre alguma coisa, mas pensar alguma coisa. Não existiria neste pensar oposição entre razão e paixão ou entre o espírito e a vida. Dos tempos passados com Heidegger levaria, além do pensar apaixonado, o amor pela poesia, mas também uma visão crítica em relação a uma filosofia voltada para o indivíduo em isolamento. Esta seria, posteriormente, uma de suas principais preocupações em relação à modernidade: a tentação do ser humano para a interiorização e a conseqüente perda do espaço público ou do que ela chamou de dignidade da política. (PERREIRA MOISÉS, In site, 2007)


No início dos anos 70 ela retorna então à Filosofia. Ainda sob o impacto do julgamento de Eichmann (Adolf Otto Eichmann, que foi responsável pelo transporte que ocasionou o extermínio de milhões de pessoas durante o Holocausto, em particular Judeus e enforcado em 1962), a pensadora se depara com a inabilidade de pensar como uma possibilidade para a dificuldade do juízo, segundo Arendt; “Eichmann não pensava no que estava fazendo, não tinha a capacidade de identificar sua conduta como criminosa”. E assim surgi A Vida do Espírito, obra que ficaria inacabada com sua morte em 4 de dezembro de 1975.

A obra, dividida em três partes (o pensamento, a vontade e o juízo) tem como questionamento principal a indagação; “O que estamos fazendo quando estamos pensando?”. Em que nos é proporcionado uma preocupação que consisti em apurar como podemos, sem nos afastarmos do mundo, retirar apenas o bastante, ou seja, ter a distância necessária para chegar à compreensão, e a partir daí surgir outra pergunta : “É a capacidade de pensar que nos faz distinguir entre o bem e o mal?”

Para a pensadora o ausentar-se do mundo é, então, “pré-condição para o efetivo exercício das atividades do espírito”. Contudo, das três faculdades espirituais, é a atividade do pensar que mais afasta o eu do mundo imediato, como enfatiza Celso Lafer, aluno de Hannah Arendt na Universidade de Cornell:


Todo leitor da obra de Hannah Arendt é instigado, inicialmente, a investigar o porquê de suas linhas serem tão desconhecidas do público. Atribui isto, posteriormente, à complexa decodificação necessária para o entendimento de qualquer tópico de estudos da autora. Este verdadeiro exercício lógico-filosófico não encontra muitas mentes dispostas em nossos dias. (LAFER, p.39, 1975)


Observa-se assim, que a preocupação de Arendt de continuar lançando mão do pensamento de Sócrates, segundo o qual “uma vida sem exame, sem reflexão, não vale ser vivida”, é de fundamental importância para analisar esse “amor à sabedoria” como meio para se concretizar o “ amor ao mundo”. Nesse sentido, a autoria apátrida que também será conhecida como “Pensadora da Liberdade”, nos deixa um legado filosófico de um excepcional ensaio sobre a compreensão da condição de existência e a responsabilidade que todos nós temos em relação ao avanço igualitário do mundo.

Flaviano Menezes


Lendo alguns trechos de Nos passos de Hannah Arendt (Record), da historiadora francesa Laure Adler, descobri que não só Arent era apaixonada por poesia como se atreveu a experessar-se através da arte de Homero. O Poema abaixo, segundo Adler, foi produzido porvavelmente no final da década de 1920, data que marcaria o fim do romance com seu ex-professor (Heidegger) e pela produção de sua tese sobre o “Conceito de amor em Santo Agostinho”.
Gostaria de dedicar esse poema para a Profª Olília, incentivadora no sentido pleno.

Canção da Noite

E se profundamente nos cansamos,
No colo noturno da noite
Esperamos por um suave consolo.

Esperando, podemos perdoar
Toda dor, toda aflição.
Nossos lábios começam a se fechar –
Sem som o dia inicia sua ascensão.
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